Monday, August 14, 2006

Mora 2006: Barroca, novas percepções de um velho povoado

Ao iniciarmos, este ano, a escavação do povoado neolítico da Barroca, demos lugar a uma nova habitação do sítio.
Passamos cerca de 5 a 8 horas por dia no povoado, andamos para cá e para lá, fazemos prospecções em torno da lomba ocupada pelos neolíticos e cada um de nós vai sedimentando a sua percepção do lugar e da envolvente.
A descoberta de novos núcleos de habitat neolíticos, do outro lado da curva do Raia, e as prospecções que aí fazemos, desdobram, por assim dizer, a nossa percepção do território. Com caminhadas, questões, procuras e descobertas, cada um de nós vai construindo a sua paisagem significativa.

Da Barroca vê-se a área ocupada pelos vários núcleos da Chaminé, do outro lado das várzeas do Raia; essa linha de vista, fechada pelos cabeços terciários que estão por detrás da Chaminé, dá-nos a sensação, não só dos sítios, mas da paisagem habitada pelos neolíticos. (De facto, prospectamos as várzeas e vamos encontrando, dispersos, cacos, percutores e seixos talhados…)

Da Barroca não se vê o recinto das Fontaínhas. No entanto, os mapas permitiram reconhecer que aquele se relaciona com a Barroca, de uma certa forma, através da ribeira de Mora. A ribeira estabelece a ligação entre o povoado e o monumento.

Os 3 cabeços do post do quotidiano, decorrem de uma observação (percepção) do Manel no menir do Barrocal que, depois de comunicada, se tornou significativa para mim. Na Barroca notei a coincidência e dei-lhe, eu, significado, retribuindo-a. Coisas de percepção, significado e comunicação.

Na Barroca, quando andamos com a cabeça levantada e olhamos os horizontes, a ribeira ou outras coisas da paisagem, podemos estabelecer ligações visuais e mentais com os outros lugares neolíticos que conhecemos. Podemos imaginar (e especular sobre) algumas das conexões que fizeram a paisagem neolítica.

2 comments:

Rafael Henriques said...

O discurso quase me levava a dizer que Castanheiro do Vento se estendera a sul do Tejo, mas seria altamente injusto. As brisas são anglófonas, a sul e norte do Tejo.

E para os fundadores da Barroca, donde e como chegariam as brisas? Às vezes ponho-me a cirandar por esses meandros e pergunto-me: sob que suportes circulava o conhecimento? Na cultura material, na música, na dança...?

Questões de um designer.

Pedro Alvim said...

As brisas, as nuvens e as chuvas, na Barroca, chegam de Ocidente. Digo isto isto com alguma certeza porque hoje apanhámos uma chuvada tremenda.
Para a parte da equipa que estava na Chaminé, que tinha o horizonte poente fechado pelos cabeços terciários, a coisa foi de repente... não acreditaram, quando a Leonor, que viu a coisa anunciada, lhes telefonou para se abrigarem :-)
Eu penso que os conhecimentos se transmitiam através da sociedade, da comunicação... e da percepção ;-). A cultura material, dança, música, monumentos e, concerteza, alguns aspectos que nos escapam, fariam parte do sistema.