Saturday, November 08, 2008

Ora, bolotas!!!!

Há limites para a arqueologia interpretativa?

Bolotas e pedras

A bolota foi, indiscutivelmente, uma das bases da alimentação, na pré-história alentejana: vários autores sugeriram, aliás, que a bolota, por permitir a stockagem, constituia um recurso importante na economia neolítica (e, eventualmente, anterior); podia ser consumida ao natural, assada, cozida, ou, depois de farinada, sob a forma de pão.

Para além dos dados carpológicos disponíveis, existem mesmo algumas representações de bolotas, integráveis na categoria dos objectos do sagrado, de tipo ídolo (como, por exemplo, no vizinho povoado de Valencina de la Concepción).

Porém, o potencial simbólico da bolota tem passado despercebido à maioria dos investigadores.

Na verdade, como sabemos, a azinheira é a árvore por excelência da paisagem alentejana.

Os bosques sagrados de querci, da mitologia druídica, são, claro, um indicador da importância ritual e metafórica da bolota na pré-história do sudoeste peninsular.

A bolota como referencial natural dos menires alentejanos.

Repare-se no umbo, ligeiramente assimétrico, encimando um perfil mitriforme, como ocorre em alguns menires especiais.

Ou no potencial simbólico de certos arranjos de bolotas, para os rituais de fecundidade.


Ou mesmo de fertilidade

E há também as implicações arqueoastronómicas, de tipo lunar

ou solar


Mesmo a forma dos vasos neolíticos pode, é claro, dever muito à bolota...

por isso, é muito sugestiva a presença de bolotas na cerâmica popular alentejana (aqui, uma peça simbólica - geralmente usada para o ritual do fumo. Note-se o umbo, ligeiramente assimétrico, copiado de formas naturais.

Com alguma criatividade, a planta dos Almendres poderia ter-se inspirado no contorno da bolota.



A ligação entre a bolota e o megalitismo funerário é uma constante nas paisagens culturais do alentejo neolítico.
A associação simbólica da bolota ao mundo dos mortos, entende-se melhor se pensarmos que a azinheira mergulha as raízes no interior da terra que, afinal, é o destino mais imediato dos mortos. As azinheiras, junto aos monumentos funerários, alimentam-se dos corpos decompostos dos cadáveres: comer estas bolotas é, até certo ponto, uma forma de canibalismo ritual...

Transformadas (processadas), as bolotas podem ter tido outras leituras, no contexto das polissemias do universo simbólico neolítico:

Objectos de adorno

Ferraduras


Cabanas

Mamoas

Barcos

Poderíamos mesmo encarar alguma relação simbólica entre bolotas e conchas, na transição Mesolítico/Neolítico. Na verdade, tal como as conchas são o exoesqueleto dos moluscos, as cascas das bolotas poderiam ser vistas como um "exocaroço".

Há, por outro lado, uma analogia obrigatória entre a bolota e o ovo, tendo em conta a forma geral, assim como a presença da casca. E as bolotas são como os ovos de onde saem as azinheiras (e os sobreiros e carvalhos).

Não é disparatado demais considerar que os menires de tipo "pedra talha" evocassem, entre outros aspectos (a figura humana, o falo, o dedo) a forma do ovo. As ferraduras "assentam" em figuras ovais. As cabanas da Idade do Bronze eram ovais. Os ovos de avestruz circularam na pré e proto-história.

A bolota aparece, por outro lado, na joalharia proto-histórica do Sudoeste Peninsular, associada a outras representações simbólicas.

Nota final:

este post (e o próximo) pretende ser um exercício de humor, com alguma seriedade. Como funciona mesmo a interpretação em arqueologia?












3 comments:

Pedro Alvim said...

Arqueologia interpretativa... como todas as outras :-)

Pedro Alvim said...

Dependendendo, é claro, do ponto de vista.

Pedro R. Andrade said...

Excelente exercício! Muito bom!